eclipse total do coração (exercício #08)

estão dizendo que viram muitas delas no caminho pra lagoa, na volta querem pega-las num potinho e levar pra casa. pra comer, ressaltaram, fazer farofa. o que seria quase clichê, se eles soubessem o que é clichê. e ironia — conversei com eles sobre isso ontem, no almoço: um dia, mais velhos, saberiam o que é ironia, (entre outras coisas) uma das melhores amigas da publicidade da arte do homem. da mulher também, não me julguem. entram na água, divertem-se extasiados. nano-sapo, mate gelado, o mais novo nada pelado. tanajuras, ou ainda içás, são as rainhas das saúvas. (eu não sabia). um senhor mau.

eclipse total da lua. aquele pequeno todo. a terra (inte)rompe o narcísico reflexo do sol sobre nosso satélite natural. nuvens densas, vazadas: meia-calça aveludada, furada de lembranças. um senhor mau (nas “pequenas coisas”). no caminho de volta, nas nossas costas, como todo dia o sol se põe. há buracos no chão, grandes buracos no chão. cada buraco uma rainha; cada rainha, uma bundinha. farofa não, pizza: delícia, mussarela com bunda de saúva. a menina corre, acha, aponta. o mais novo, sem pudores, pega na mão & chama o mais velho, guardião do pote. um senhor mau (nas “pequenas coisas”), certamente avô.

lembro de bonnie tyler. impossível não lembrar de bonnie tyler, total eclipse of the heart. embate do sono com a curiosidade. o mais novo abdica, prefere sofá à estranha comida. mais velhos, de olhos pesados, ela & ele resistem. um senhor mau (nas “pequenas coisas”), certamente avô, de olhos a lá sinatra. tá assando, mais uns 10 minutos. a lua segue subindo no céu. pizza pronta, fatias servidas, a destemida dupla de caçadores se recusa a comer o fruto de sua caçada. paradoxos da infância. comem, escovam os dentes, deitam e dormem. dourada, redonda, alta no centro do céu. um senhor mau (nas “pequenas coisas”), certamente avô, de olhos a lá sinatra passando de motocicleta.

zenital, sua luz começa a dissipar. uma lenta mas-não-tão-lenta sombra solar começa a cobrir a lua, que encontra-se no seu ponto mais próximo da terra — a tal da superlua. superlua com eclipse lunar, fenômeno raro. segundo a NASA, a última vez que isso aconteceu foi antes d’eu nascer. e a próxima deve levar uns 20 anos. ao redor, raios, tormenta elétrica, prenúncio. deitado no quintal, observo. luzes rasgam a negritude. penso em ovnis, mas são vagalumes. divago em pensamentos, (re)visitando meus 12, 13 anos. a lua é um fiapo de sorriso invertido, densas nuvens negras forram o céu. fade to black. ventos, trovões intensificados. portas e janelas batendo, árvores balançando. clima de catástrofe — acabar tudo num eclipse seria por demais irônico, pra não dizer clichê. penso em fim de mundo, chega uma simples chuvinha. um senhor mau (nas “pequenas coisas”), certamente avô, de olhos a lá sinatra passando de motocicleta a 33 km/h. ambos, ele e a chuva, passam. a experiência de comer bundas de formiga durante o eclipse da superlua, permanece.

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