mais um texto de dia dos pais

Meu aniversário de 4 anos (acho)

oi pai, espero que você esteja bem.

há tempos não nos falamos, né? eu lembro de uma das nossas últimas conversas — minha memória é um pouco falha, então talvez não tenha sido bem essa que, na verdade, foi uma discussão — relacionada ao IPVA do meu carro, o qual eu estava indignado por ter que pagar, visto que já havia pago pelo carro (o qual, também na verdade, você e a mãe nos deram quando estávamos grávidos do Ravi), pagava pedágio e ainda tinha que dar anualmente uma grana pro governo , o que você achava normal.

enfim, eu continuo achando isso estúpido e você, provavelmente, continua achando que é assim que funciona; se eu não concordo, que não tenha carro.

(peraí, vou pegar outra cerveja. aproveitando, uma das memórias mais fortes, — daquelas que tem cor, cheiro e sabor — que eu tenho quando penso na infância era de beber a espuma do seu copo de cerveja na sala de TV no final de tarde ali na casa da Pedro Marques Leão)

voltei.

então, tô te escrevendo pois eu estava ouvindo um podcast — podcast é tipo um programa de rádio, mas o pessoal coloca na internet e você escuta quando e onde quiser — cujo título do episódio era “Homem Pai” e, desde o início da conversa, eu obviamente pensei em você.

conforme eu ouvia homens e mulheres de diversos contextos compartilhando suas vivências tanto como filhos como quanto pais e mães, as lembranças de você, as reflexões sobre nós e os pensamentos sobre meus filhos tomaram o primeiro plano da minha mente.

é agosto, estamos chegando perto do Dia dos Pais. nós dois sabemos que é uma data comercial, mas, ainda assim, existe uma clima, uma egrégora em torno desse período, né?

inclusive, acho que vou compartilhar esse texto justamente nesta data, pois as pessoas estão mais sensibilizadas, as redes sociais ficam cheias de homenagens e talvez esse texto repercuta mais. afinal, a gente escreve pra ser lido né?

inclusive (posso começar dois parágrafos da mesma forma?) — olhaí outra lembrança forte que tenho de você, nem sei se você se lembra disso, mas uma vez, eu devia estar na terceira ou quarta série, estávamos estudando na escola sobre democracia, processos eleitorais ou algo do tipo e tivemos uma simulação de eleições na sala de aula, acho que não para nenhum papel específico, mas para sacar como o processo (em teoria) funciona, e eu me candidatei para presidente (ou vice do Serginho, não me lembro dos detalhes) e você, também na casa do Jardim Paulista, repassava comigo, na sala da cozinha, meu discurso de campanha ou coisa que o valha; o que me chama atenção nessa lembrança é que você ditava o que eu devia falar e, subitamente, você falou “ponto e vírgula” e eu escrevi “.,” e você me corrigiu, dizendo que o certo era “;”, algo que eu até então nunca havia visto.

talvez por isso, de forma inconsciente, eu goste tanto, sinta prazer, ao usar “;” em um texto.

pensando agora, eu ouvia esse programa, o tal do podcast, justamente enquanto trabalhava na reforma de um beliche que comprei pros meninos. jamais imaginei que fosse tão difícil encontrar uma beliche usada para comprar aqui em Botucatu — sim, continuo morando aqui; gosto muito, sinto mais vínculo com essa cidade hoje do que com minha velha Little Gold natal, sabia? você deve saber disso, mas há um ano e meio saí do mato e vim morar na cidade — depois daquela casa que você conheceu no aniversário de um ano do Ravi (anteontem o Theo fez doze, acredita?), eu morei em mais duas lá no bairro, em condomínios diferentes, até me mudar para cá.

depois de fazer o que precisava no beliche, cerca de uma hora após o início do podcast, ainda com os olhos (constantemente) marejados, resolvi lhe escrever.

até por que, meses atrás, ao deitar na cama uma noite, senti uma saudade imensa de você, peguei o celular e digitei algumas palavras sobre o que eu sentia. era algo mais ou menos assim:

o título deste documento salvo com rascunho no celular é “TX 5 anos”, ou seja, suas partida completava cinco anos.

[um apêndice: sincronicidade (já ouviu esse termo, pai?)é uma coisa doida mesmo… enquanto eu escrevo estas palavras, no Spotify toca “Naquela Mesa” na voz de Nelson Gonçalves. lembro de ter conhecido — e gostado muito d— essa música alguns anos atrás, por conta da regravação do Otto, mas a letra como um todo, esse trecho em especial, representa perfeitamente minha sensação enquanto escrevo estas palavras:

naquela mesa está faltando ele,
e a saudade dele ainda dói em mim

detalhe que isso é puro fruto do Acaso; quando sentei para escrever, procurei pela música mais me recorda você, apesar de não me lembrar de você ouvindo-a, mas sim cantando e contando o contexto — “Sessão das 10”, do Raulzito, música que eu também adoro. daí em diante o algoritmo do Spotify foi escolhendo músicas ao seu bel prazer, até chegar nessa. ao seu fim, fiz questão de voltar e ouvir novamente]

“Quando eu mudei para São Paulo, eu ia muito ao cinema…”

pai, você foi um cara foda.
nos dois sentidos que esta palavra carrega.

você nasceu em 46, logo após o pós-guerra. seu pai, vô Antônio, o qual nunca conheci, nasceu no início do século passado. não tenho a menor ideia, não sei nem o nome, do pai dele, meu bisavô. nem sei se ele nasceu em outro país ou se essa geração da nossa família era brasileira nata ou não. de qualquer maneira, seu pai foi um homem do início do século 20, e você um homem de meados dele. eu sou um filho do final deste mesmo século, mas sou um homem do século XXI. eu tenho o dever de me rever, de mudar o que não me agrada na minha análise, mas de dar seguimento ao que concordo e acredito.

mesmo com as suas limitações fruto de ser filho do seu momento e contexto — assim como eu com as minhas — , com todos seus erros e acertos, suas qualidades e defeitos, o saldo é muito positivo. pai, você é uma figura peculiar.

claro que não posso utilizar plenamente minhas memórias e seus referenciais de infâncias para fazer uma análise aprofundada ou afirmar muita coisa, mas hoje, sendo também pai, eu posso refletir e traçar paralelos sobre muita coisa a respeito da nossa relação, da relação pai e filho, agora com base empírica nos dois papéis.

além do tempo, a vida é também uma coisa curiosa, né?

você casou e teve dois filhos. separou-se, conheceu minha mãe, que já era mãe, se juntaram e, sei lá, uns dez anos depois, me tiveram. ou seja, nesse tempo todo, além dos seus dois, você teve um terceiro, e, depois, um quarto filho.

meu primeiro filho, a criança que me transformou no que sou e estou sendo hoje, assim como meu irmão materno em relação à você, não é meu filho biológico; mas isso não tem qualquer diferença para mim, eu amo ele tanto quanto aquele que possui a mesma carga genética que eu — assim como eu sei que você amou o seu filho que também não carrega seu DNA.

nesse caso, a história não se repete como farsa, mas como um aprofundamento de uma situação, para ser experimentada de forma mais intensa, com outros desafios e outras possibilidades de sucesso.

pai, este texto já está longo; certeza que a maior parte do pessoal que começou a ler no facebook já abandonou a leitura e nem está lendo isso agora. eu tenho MUITO mais para lhe dizer, mas não será agora, nem será aqui.

enquanto eu lixava a beliche e ouvia o podcast, pensei e lembrei de tanta coisa que precisaria escrever um livro pra abordar tudo isso e algo mais.

falando nisso, (você também deve saber), mas eu comecei a fazer livros.
já tem uns anos, foi coisa de um ano após sua partida.
certeza que aquela sua maquina de escrever, a qual, além das duas garrafas de uísque do seu armário — e das dívidas em meu nome — eu tomei como herança, me influenciou nesse processo. meu luto foi te bebendo e te teclando nas madrugadas das semanas subsequentes à sua passagem, mas você deve ter acompanhado isso, ou não. o lance é que publiquei alguns meus, depois peguei gosto pela coisa, comecei a fazer de outras pessoas e agora tô me estruturando, “oficialmente”, como uma editora. se estivesse aqui agora, talvez você achasse isso um absurdo, mas no fundo sentiria orgulho e me ajudaria da forma que pudesse, ainda que expressando contrariedade.

enfim, enquanto o pessoal debatia sobre isso no podcast, pensei que eu não me lembro de ouvir você me dizer “eu te amo”, mas eu senti, sinto e sei que você sentia isso (ainda que não verbalizasse; ao menos não a ponto de me criar uma memória). hoje — na verdade, nunca — eu não repito isso à torto e à direito, não é uma expressão constante no meus diálogos cotidianos, mas faço questão de manifestar esse sentimento, de dizer “eu te amo”, para meus filhos, e também para minha companheira, ainda que não tanto quanto sinto ou, talvez “devesse”. acho que eu tenho receio de banalizar essa declaração, de virar aquele “bom-dia-tudo-bem?” que soltamos automaticamente quando cruzamos as pessoas pela manhã, sabe?

pai, eu tô tentando terminar esse texto, até pra ele não ser mais um abandonado nos rascunhos do Medium — tipo um texto justamente podcasts, no qual eu inclusive cito que hoje em dia, ouvindo-os no carro enquanto dirijo, sempre me lembro de você ouvindo rádio, geralmente notícias ou futebol na AM, no carro — , mas tá complicado. cada vez é uma memória que se manifesta. mas eu vou nessa, a gente se fala em breve. vê se aparece (mas de uma forma sutil, se não eu posso me assustar).

eu te amo muito, muito mesmo.
feliz dia dos pais.

poeta | editor | artista visual | produtor cultural | etc. @nadastudiocriativo :: bio.fm/bagadefente :: be.net/nadastudiocriativo

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