ramalhete (exercício #09)

(escrito ao som de Improvisations & Tukras, de Eric Dolphy)

súbita, a ventosa se desprega e ao tocar a gélida ardósia do ateliê faz um leve som agudo. quatro, cinco meses lá colada, habitando a superfície translúcida da janela, até este momento dividida com um ramalhete seco de plantas, presente fruto da abertura de cartas para uma amiga numa noite fria de outono, minha época preferida. o outono acolhe, refresca os pensamentos com a suavidade da melancolia aconchegante acariciando a mente e afagando os sentimentos.

as plantas, folhas grandes, pequenas, botões murchos de flores potenciais ainda pendem no barbante preso ao trilho da cortina inexistente, a janela da sala protegida dos olhos aleatórios, mas ainda assim curiosos, testemunhas oculares da minha, da sua, a nossa nudez, e de alguns outros corpos fugazes pelas manhãs tardes e noites descendo e subindo a escada elo entre a casa e o quarto onde muitas vezes fui sou e ainda serei feliz não ao seu lado mas de outras fêmeas desfilando suas peles multicoloridas pelos degraus de madeira transformados em estante biblioteca cheia de livros & memórias empoeiradas.

estas plantas perderam seu cheiro. apesar de secas permanecem firmes & imóveis, sem esfarelar ou se desprender dos galhos, lembranças de vida dos nutrientes um dia ofertados pela terra. estas plantas deixaram de exalar qualquer odor, nem oferecem artifícios olfativos às memórias muitas vezes associadas aos odores, formas acessíveis de se deslocar por entre espaço-tempos distintos & distantes.

noite escura feita clara pela fogueira iluminando & aquecendo nossas dúvidas. no quintal, sob o tapete protegendo da umidade, o sono protegendo da realidade, as cartas foram abertas e mais uma vez, sempre, ofereceram caminhos para interpretarmos a realidade. tarô das plantas, cartas bem ilustradas, com poucas informações pontuais & abstratas, livres para a leitura subjetiva dos indivíduos, auto-análise de contextos com o intuito de reinterpretar e mesmo alterar a realidade. eu quero alterar a realidade, estes fugazes pedaços de vida, ofertas em moto-contínuo ao existir.

o monstro debaixo da cama é menos assustador do que parece. na maioria das vezes, ele nem está lá.

nesta réstia de luz, gota de noite, sou personagem (des)construído criando ficções fúteis, no som das estrelas, formas efêmeras de amar.

eu estou alterando a realidade.

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poeta | editor | artista visual | produtor cultural | etc. @nadastudiocriativo :: bio.fm/bagadefente :: be.net/nadastudiocriativo

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