foto de @bagadefente

encostada em seu carro, fumando um cigarro no estacionamento de um posto de beira de estrada enquanto eu mijava, naquela sexta-feira, 10h22 da manhã, ela era a mulher mais charmosa do mundo fumando um cigarro num posto de beira de estrada numa sexta-feira às 10h22 da manhã.

apesar de se conhecerem — melhor dizendo: apesar de saberem o nome um do outro, terem casualmente se cumprimentado em algumas ocasiões e trocado não mais que meia dúzia de palavras em algumas delas, inclusive, numa dessas situações, sabe se lá como, descobriram algo em comum: ambos tinham Sol em Capricórnio e Lua em Câncer.

para os interessados, curiosos e/ou simpatizantes de Astrologia, fatos desse tipo — que alguns chamam de coincidência ou sincronicidade — sempre são coisas a se levar em conta. neste caso específico, as chances de identificação imediata são grandes, visto que — por mais discrepante que possam parecer e mesmo ser em muitas questões, possivelmente estas pessoas compartilham características bem específicas, traços de comportamento e visões de mundo em comum.

enfim, apesar de se conhecerem há uns poucos meses e saberem que “diante da vastidão do tempo e da imensidão do universo”, dividiam não apenas um planeta e uma época, mas também alguns bons amigos e a cidade na qual moravam, haviam começado a conversar há pouquíssimo tempo.

começou num bar. ela estava sozinha, tomando uma cerveja, curtindo o som. ele chegou com um amigo, foi sozinho até o balcão, a viu e cumprimentou. queria conversar, puxar papo, conhecê-la melhor, mas não o fez. algum tempo depois, seu amigo, que a conhecia há mais tempo e melhor, conversava com ela. ele se juntou, mas optou por ficar meio alheio, ouvindo o som e a conversa de relance. do bar, os três seguiram para uma festa.

lá, enquanto a banda tocava, ele se percebeu ao lado dela. puxou papo, aquele lance dos signos. ela foi receptiva, e pela primeira vez sem qualquer receio ele se deu a chance de olhá-la bem. que mulher linda era ela, seus olhos tinham o brilho das primeiras estrelas que cintilam no céu antes de escurecer.

ela precisava ir embora, era tarde e ela acordaria cedo na manhã seguinte, mas estava difícil cortar aquela conversa. quando disse meio que pra si mesma pela quarta ou quinta vez que precisava ir embora, ele não insistiu e a apoiou, “isso aí, é por uma boa causa”. ela se foi, ele ficou, sentindo que ali existia algo.

no dia seguinte, o procedimento padrão seria acordar, adicioná-la ao facebook, começar uma conversa e a convidar para sair. mas ele optou por não fazer isso, pelo contrário, não queria repetir erros ou padrões. não com ela. achou melhor esperar um pouco, não demonstrar tanto interesse. detestava joguinhos, essa coisa besta de (auto)manipulação, mas nesse caso era outra coisa, mais uma precaução: gato escaldado tem medo até de água fria. passional, sempre se jogava de cabeça, descascava seu coração, expondo-se muito rapidamente, até perceber que hoje em dia boa parte das pessoas se assusta com isso. dessa vez seria diferente, ela não seria apenas mais uma.

neste mesmo dia, talvez no meio da tarde, plim! uma notificação no seu celular lhe informava que ela havia lhe enviado um pedido de amizade. ficou feliz, era um bom sinal. no dia seguinte, pegou um gancho numa postagem dela e puxou papo. da mesma forma como a coisa fluiu ao vivo, ali no virtual a conversa também era empolgante, um assunto emendava no outro e a vontade dele era de ficar horas e horas conversando, buscando saber um pouco mais sobre ela nas entrelinhas de cada mensagem trocada. platônico, ele já estava encantado. bosta.

encontraram-se novamente no mesmo bar. passava das 22h. mesmo com os olhos levemente moles de cerveja, o brilho que ele viu naquela outra noite permanecia ali. talvez até mais forte. conversaram como nunca. cada vez que ela apoiava suas mãos nos braços dele para rir, ou havia qualquer tipo de contato físico casual, ele ficava mais em dúvida se eram sinais (sub)conscientes, índices de interesse, ou apenas jeito de ser dela. ele tinha Vênus em Sagitário, portanto todo aquele processo prévio, os rituais de cortejo & conquista, o atraiam por demais. a adrenalina daqueles infinitos instantes que transcorrem entre o ímpeto do primeiro beijo e a dúvida de sua correspondência, aquele híbrido de tesão & tensão, era uma das sensações que mais mexiam com ele. onde estaria a Vênus dela?

o bar fechou, eles continuaram com um pequeno grupo de amigos conversando ali em frente. seguiram pro bar ao lado, onde continuaram a beber. jogaram sinuca. pessoas bacanas, divertidas. a noite agradável por demais. quanto mais o álcool se misturava ao seu sangue, mais ele desejava se misturar com ela. ainda assim, estava tendo um certo cuidado para não explicitar isso. dessa vez seria diferente. mas não estava sendo fácil. depois das 3 da manhã, menos ainda. ela sentada na beira da mesa, ele ao seu lado, bem perto, percebeu que, quase contra sua vontade — ou melhor, quase fora do seu controle, mas a favor da sua vontade — os dedos de sua mão, extremamente próximos à dela, ensaiavam carícias. talvez até tenham arriscado algo, mas num lapso de consciência ele os interrompeu. não queria repetir padrões. desta vez seria diferente.

a madrugada seguia quando todos resolveram ir embora. sua vontade era seguir com ela, deitar com ela, dormir e acordar com ela. mas propor isso naquele contexto poderia ser muita ousadia — algo que ele normalmente faria, e por isso mesmo não o fez. ambos estavam de carro, não dava pra oferecer nem pegar carona. seguiriam para extremos opostos da cidade. se despediram, mas antes disso, quase sem querer, descobriram que ambos viajariam dali dois dias, ele de carona, ela de carro. e que o destino dele estava no caminho dela. ficaram de se falar para ver se calhava de viajarem juntos. diante dessas e outras coisas curiosas descobertas naquela noite, ele dirigiu pra casa feliz, acreditando que o universo conspirava a seu favor. ou melhor, a favor deles.

no dia seguinte, a vontade era de encontrá-la novamente. afinal, a noite anterior havia sido tão agradável, divertida. mas novamente segurou seus ímpetos. é difícil obter resultados diferentes fazendo as mesmas coisas. desta vez seria diferente, né? apenas combinaram a viagem, rolou dele ir com ela. e assim foi. foram. um bom tempo juntos e sozinhos, assuntos mil. mas ele, tão sociável & desenvolto, eventualmente objetivo & cara de pau, quando precisa dar voz ao seu coração, escreve. por isso muitas vezes falar é difícil.

em quase duas horas de conversa, não conseguiu nem perguntar sob qual signo estava a Vênus dela. já na sua cidade-destino, conseguiu esboçar algo, se aproximar do tema afetivo. quase gaguejou, tropeçou entre palavras, mas deixou algo solto no ar. não queria assustá-la. as pessoas andam com medo de amar, se apaixonar ou coisas que o valham. pensando sobre o amor nos tempos de tinder, ser romântico é ofensivo. e os românticos, por natureza, são sonhadores. se escritores, multiplique por trinta & sete. por exemplo:

digamos que na divertida noite com sinuca, as coisas tivessem sido diferentes. o clima realmente fosse um clima, a recíproca verdadeira. as pessoas vão embora de forma autônoma, restam os dois, cada qual com seu carro e seu rumo em lados opostos da cidade. ele não quer ir embora, ou melhor, quer, mas junto dela. ela sente o mesmo. naquela rua deserta, numa madrugada quente de verão, na hora de se despedirem, se abraçam, se beijam. um beijo emenda noutro, aquela vontade não será saciada tão rápido. ele sugere irem pra casa dele, ela diz que precisa acordar cedo. ele percebe que está repetindo o padrão (e dessa vez vai ser diferente).

— sim, é melhor cada um ir pra sua casa mesmo, não quero acordar do teu lado amanhã.

num misto de surpresa & quase decepção, ela o olha com cara de “por quê?”

— porque eu tenho certeza que vai ser extremamente difícil abrir os olhos, ver você na cama e conseguir te deixar ir embora assim tão rápido.

ela sorri e lhe dá um beijo bem enfático.

— além disso, tu já descobriu onde tá sua Vênus?

— ainda não, por quê?

— pra saber se te levo café na cama ou vou embora antes de você acordar…

(dessa vez, vai ser diferente.)

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