Sujeito de Sorte

Este texto foi originalmente escrito e postado no meu perfil pessoal do Facebook como um daqueles desabafos expontâneos que eventualmente saem após (sucessões de) dias difíceis. Como ele dialogou com diversas pessoas que interagiram tanto com a publicação por meio de comentários quanto comigo via inbox, até por sugestão de uma dessas pessoas, resolvi compartilhá-lo (com alguns pequenos ajustes) também aqui.

Fui pai pela 1ª vez aos 23 anos.

por conta disso, das consequências & mudanças decorrentes disso — e pelo fato de ter nascido com Sol em Capricórnio, signo regido por Saturno — durante anos acreditei piamente que havia antecipado o retorno deste último.

(para quem não sabe, segundo a Wikipedia,

“um retorno de Saturno é um trânsito astrológico que ocorre quando o planeta Saturno retorna ao mesmo local do céu que ocupava no momento do nascimento da pessoa. (…) Psicologicamente, o primeiro retorno de Saturno é visto como o tempo de alcançar a vida adulta plena, e encarar-se, talvez pela primeira vez, com desafios e responsabilidades adultas.”

aos 26, me tornei pai mais uma vez, fato que ressaltou essa sensação de antecipação. achava que lá pelos famigerados 29 anos, quando ele retornasse, eu olharia para sua cara, daria risada e diria “chegou tarde, seu véio chato”.

ledo engano…

logo após completar meus 28, tomei o 1º murro de Shaturno (apelido carinhoso que cunhei para ele), um nocaute profissional: consegui um trabalho totalmente em desacordo comigo, maçante, quadrado — exatamente como tantas vezes eu dissera que queria.

aos 29, 2º murro de Shaturno, este um nocaute pessoal: separação, fim da minha relação de casal com a mãe dos meus filhos — também algo que não aconteceu à toa, algo que de certa forma foi construído & desejado.

finalmente, aos 30, 3º nocaute, agora familiar, com a morte inesperada de meu pai. ao menos neste caso creio que não exista qualquer causa relacionada a algo que desejei, mas mais uma vez foi a possibilidade de crescer às custas de um aprendizado doloroso, a chance forçada de colocar em prática diversas teorias nunca aplicadas sobre a partida de pessoas próximas e a morte de modo geral.

aqui valem dois destaques curiosos:
1) neste período, de uma forma torta, até mesmo bizarra, tudo que eu desejei eu consegui, mas não como eu esperava ou imaginava. aquele velho clichê “cuidado com o quê você deseja, pois você pode conseguir” se mostrou carne.
2) os três nocautes aconteceram sempre na mesma época do ano, final de fevereiro, começo de março, cerca de dois meses após meu aniversário.

após cada nocaute, suturados os cortes, limpas as feridas, ossos no lugar, levantei, bati a poeira e, de uma forma ou outra, explicitamente ou não, creio que por não ter desistido e seguido adiante, o universo me recompensou.

mas toda essa lenga-lenga é um mero desabafo pra dizer que depois do último ano, mais especificamente o último mês, a semana que passou, o dia de hoje, percebo que os 31 anos que vieram antes disso foram fichinha… no último ano desta presença saturnina, confesso pro cês que não está sendo fácil. golpe após golpe, mancada atrás de mancada, sabendo da qualidade e imensa gama de possibilidades dos serviços que ofereço, trabalhando um monte e ainda assim me afundando cada vez mais em dívidas, com toda perspectiva de mudança se afastando pouco antes d’eu alcançá-la — tipo o Papa-Léguas sempre fugindo do Coyote no último instante — , devendo mensalidades da escola do meu filho, estourado o limite do cartão de crédito e do cheque especial, me sentindo sozinho, quase amaldiçoado quanto o assunto é amor, a vontade de desistir se manifesta todo dia, cada dia um pouquinho mais forte que o anterior.

dizem que Saturno é uma pai carinhoso, que cobra, mas depois afaga. preciso crer nisso e no amor que sinto pelas minhas crianças para superar este tal de 2016 — talvez o mais estranho dos anos recentes, tanto pessoal quanto nacional e globalmente falando. se eu chegar à 2017, completar os simbólicos 33 anos e no final de março estiver vivo, acordarei um manhã, abrirei a porta da varanda e, sentindo a brisa gelada sob o sol quente no 1º dia do outono, cantarei de peito cheio o refrão da canção abaixo, do meu querido Antônio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes:

“ANO PASSADO EU MORRI, MAS ESSE ANO EU NÃO MORRO!”

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