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Fernanda Ribeiro retratada por Isabelle Ebener

Antes de tudo, antes de qualquer coisa, só havia silêncio.

Antes do Big Bang, do OM, antes da primeira vez que ouvimos o coração de nossas mães batendo, tudo é silêncio.

Existem diversos tipos de silêncios, dos que curam aos que matam.
O silêncio sensato, que se cala por cautela, muitas vezes acalma, acalenta.
O silêncio sufocado, que se cala por medo, pressão ou covardia, castra nossa autonomia.

A palavra tem poder, a fala tem poder e o silêncio, também.

O silêncio pode ser muita coisa, por isso deve ser honrado e respeitado — mas jamais calado.

O texto acima…


(um poema nada folião)

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arte original por Baga Defente

hoje é sexta-feira de carnaval

três anos atrás que eu me
mudei para casa onde
agora escrevo este poema

também numa sexta carnavalesca
quando eu tinha uns 14 ou 15 anos
pela primeira vez eu comi um
hot-dog daqueles que a gente mesmo
montava na conveniência de um
posto de combustível com amigos
na minha pequena cidade natal

numa sexta-feira de carnaval no agora já distante ano de 2008 eu escrevi o “meu primeiro poema cabalístico” — era esse o título — um longo texto em versos escrito sob forte efeito de um livro sobre cabala que eu havia recém-comprado…


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Arte original por Baga Defente

depois que você foi embora eu comecei a andar pela casa e vi pequenas partes suas espalhadas por quase todos os cômodos: a bicicleta na garagem, a planta na entrada, um cabo USB na sala, a panela de pressão na cozinha, o quadro que você pintou com seu sangue menstrual e deu pra mim de aniversário na parede do estúdio, a camisola de seda vermelha na gaveta, um colar no potinho de jóias ao lado do altar, sua escova de dentes amarela no armário do banheiro, teu cheiro na minha camiseta furada de pijama, o calor da tua imagem impressa…


quarto poema em uma série de três

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Arte original por Baga Defente

dedicado a Abaeté, Cabipajuba & Mircea Eliade

pássaros amarelos sobre
a estufa úmida
resquícios de chuva gotejando
sob o toldo onde se lê
“o amor é a solução para tudo”

a mente vaga pelo sangue
um coração se desfaz na fumaça

o instante é um momento favorável

uma roda de doze raios & a
dissolução total do Ovo Cósmico

o Universo em si é vazio de realidade

lá em em casa, todo dia
anoitece com três sóis

toda Forma que se manifesta no
Tempo é ontologicamente irreal

cachaça com mel a cabrita Rita &
as dinâmicas sociais do campo

a…


mais um poema de aniversário

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Ilustração original por Baga Defente

hoje eu faço 37 anos

mas ninguém ao meu redor
sabe ou se dá conta disso

comigo
encontrando-se
perdido nesta terra
de destino utópico
meu mais complexo presente
meu filho mais novo
motor propulsor que
movimenta minha vida
em direção a algum sentido

hoje eu faço 37 anos

para o sistema o estado a burocracia
para aqueles que acreditam
nos limites imaginários do solo
em conceitos fictícios como nação
sou brasileiro nascido em 1984
na pequena pepita do oeste paulista

ainda que de forma torta
sem envolver gametas zigotos
ou espermatozóides aos 23
tornei-me pai pela primeira vez

três anos…


400 anos de céu nublado

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Colagem digital de Baga Defente sobre foto de Gustavo Rojas.

“o futuro é a potência do agora”
disse no instagram a astróloga

estupefato pequeno
bocal oval de aço —
cada passo mal calculado
é outro dado em falso

peço um punhado de areia
& lhe ofereço: na noite mais
longa você cuidou de mim

a última nuvem branca do dia

o eclipse total do sol revelou
as sombras em nossos corações

sete noites depois
no cinza céu do tempo
dois gigantes se encontram

todo corpo celeste é carregado de surpresa

no quarto vazio ao lado, a mariposa

escovas de dente no armário do banheiro tua pulseira enroscada em meu colar…


não fazem carnaval

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Ilustrações originais por Baga Defente

sob um céu escuro & mudo
cachorros aranhas & bandeiras tremulando
sopa de lentilha com bacon & calabresa
um porco de pedra & o lugar da mulher
moderna sobre a mesa

uma matriz sentimental desenvolvida

universos explodem o espaço afunda
em buracos sem saída & o tempo
de s⠀ a⠀⠀ c⠀⠀ e⠀⠀ l⠀⠀ e⠀⠀ r⠀⠀ a

uma estrela massuda queima
todo o seu hidrogênio &
acaba se extinguindo

a imediata suspensão do tempo
o lento cancelamento do futuro
um presentismo eterno

há uma mariposa atrás da porta do estúdio

tudo ficou mais rápido mas nós não saímos do lugar &…


na mesa da cozinha ficamos somente a Manteiga de Primeira Qualidade com Sal Taubaté™ & eu

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Ilustração original por Baga Defente

é tão mais fácil ser um gato

ficar deitado ronronando no sofá
aconchegado entre pessoas que
conversam sobre caminhos escolhas
& de como será daqui pra frente

juno & vênus saindo de escorpião

hoje o que eu mais vi foram
chapas de raio-x fotografadas
contra o sol durante o eclipse

me lembrei da última aparição
do cometa halley mas em 1982
eu era muito pequeno então essa
deve ser uma memória criada

uma mariposa me encara na escada

enquanto diante do fogão você espera o queijo derreter sobre uma massinha de pão semipronta feita com farinha de trigo eu faço…


dica: nem perca seu tempo lendo

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essa foto de foco de uma VHS com mofo não possui qualquer relação com o texto

eu poderia me aproximar do poema, encarar esta alva folha branca digital, esse imenso universo virgem que me encara e, assim como quem não quer nada, dizer “oi, sumida!” e emendar um papo-aranha qualquer para ver se ela me dá bola; esse ano, eu passei meio distante dela.

sim, justo esse ano, dois mil e vinte, vinte vinte: o ano que não existiu — ou que existiu até demais.

passado meados de novembro, eu escrevi apenas três poemas nesses onze meses. agora há pouco tentei escrever um quarto, mas ele se transformou nisso que você lê, uma prosa disforme e…


primeiras reflexões pandêmico-poéticas

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Ilustração digital de Baga Defente sobre monotipia de Otávio Seraphim

Se você estiver acessando este poema via smartphone, aconselho visualizá-lo no Instagram. Sua experiência será bem mais agradável e você ainda confere o texto com sua diagramação original. Caso esteja em outro dispositivo, boa leitura!

I.

a lentidão das minhas mãos &
a atrofia em meus dedos
não correspondem à velocidade da minha mente
⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀por entre os músculos da minha casa
não correspondem à sensação de tempo comprimido
⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀à sensação de ar faltando
⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀por entre as paredes do meu peito

este esboço aqui dentro potencial grito consumindo a mais densa camada da minha pele este esboço⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀(que) luta para se manifestar…

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